o homem é tão apegado ao que existe que acaba por preferir suportar a sua imperfeição

31.8.12

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Em geral, essa sensação de estar só no mundo aparece mesclada a um orgulhoso sentimento de superioridade: desprezo aos homens, acho que são sujos, feios, incapazes, ávidos, grosseiros, mesquinhos; a minha solidão não me assusta, é quase olímpica.

Mas naquele momento, como em outros semelhantes, encontrava-me só em consequência dos meus piores atributos, das minhas baixas acções. Nesses casos sinto que o mundo é desprezível, mas compreendo que também eu faço parte dele; deixo-me afagar pela tentação do suicídio, embriago-me, procuro as prostitutas. E sinto uma certa satisfação em provar a minha própria baixeza e em verificar que não sou melhor do que os sujos monstros que me rodeiam.

(...)

O suicídio seduz pela sua facilidade de aniquilação: num segundo, todo o universo absurdo cai como um gigante simulacro, como se a solidez dos seus arranha-céus, dos seus encouraçados, dos seus tanques, das suas prisões não fossem mais que uma fantasmagoria, não mais sólidos que os aranha-céus, encouraçados, tanques e prisões de um pesadelo.

A vida aparece à luz desse raciocínio como um longo pesadelo, do qual, no entanto, cada um pode libertar-se com a morte, que seria, assim, uma espécie de despertar. Mas despertar para quê? Essa relutância em lançar-me ao nada absoluto e eterno foi o que me deteve em todos os meus projectos de suicídio. Apesar de tudo, o homem é tão apegado ao que existe que acaba por preferir suportar a sua imperfeição e a dor que causa a sua feiúra, a aniquilar a fantasmagoria num acto de vontade própria. E costuma acontecer, também, que quando chegamos a essa beira do desespero que precede o suicídio por ter esgotado o inventário de tudo o que é mau e ter chegado ao ponto em que o mal é insuportável, qualquer elemento bom, por menor que seja, adquire um valor desproporcional, acaba por se tornar decisivo, e aferramo-nos a ele como nos agarraríamos desesperadamente a qualquer erva perante o perigo de rolar num abismo.

from El Túnel by Ernest Sábato

When asked, 'Why do you always wear black?', he said, 'I am mourning for my life.'

31.8.12

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frase roubada ao Anton Chekhov, foto de minha autoria

nos tempos livres

30.8.12

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Andrei Tarkovsky no set do filme Zerkalo

noodinâmica

30.8.12

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A busca por sentido certamente pode causar tensão interior em vez de equilíbrio interior. Entretanto, justamente esta tensão é um pré-requisito insdispensável para a saúde mental. Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efectivamente para a sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a nossa vida tem um sentido. Há muita sabedoria nas palavras de Nietzsche: "Quem tem por que viver suporta quase qualquer como." Nestas palavras vejo um lema válido para qualquer psicoterapia. Nos campos de concentração nazistas, poder-se-ia ter testemunhado que aqueles que sabiam que havia uma tarefa à sua espera tinham mais probabilidades de sobreviver. Outros autores de livros sobre campos de concentração chegaram à mesma conclusão, assim como investigações psiquiátricas sobre acampamentos com prisioneiros de guerra no Japão, Coréia do Norte e Vietnam do Norte.

Quanto a mim, quando fui levado para o campo de concentração em Auschwitz, um manuscrito meu, pronto para publicação, foi confiscado. Não há dúvida de que o meu profundo desejo de reescrevê-lo me ajudou a sobreviver os rigores dos campos de concentração em que estive. Assim, por exemplo, quando fui atacado pela febre do tifo, rabisquei muitos apontamentos em pedacinhos de papel para depois conseguir reescrever o manuscrito, caso vivesse até o dia da libertação. Tenho certeza de que essa reconstrução de meu manuscrito perdido, levada a cabo na penumbra dos barracões de um campo de concentração na Baviera, ajudou-me a superar o perigo de um colapso cardiovascular.

Pode-se ver, assim, que a saúde mental está baseada num certo grau de tensão, tensão entre aquilo que já se alcançou e aquilo que ainda se deveria alcançar, ou o hiato entre o que se é e o que se deveria vir a ser. Essa tensão é inerente ao ser humano e, por isso, indispensável ao bem-estar mental. Não deveríamos, então, hesitar em desafiar a pessoa com um sentido em potencial a ser por ela realizado. Somente assim despertaremos do estado latente a sua vontade de sentido. Considero perigosa a errônea noção de higiene mental que pressupõe que a pessoa necessita em primeiro lugar de equilíbrio, ou, como se diz na biologia, de "homeostase", ou seja, de um estado livre de tensão. O que o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente. O que ele necessita não é a descarga de tensão a qualquer custo, mas antes o desafio de um sentido em potencial à espera do seu cumprimento. O ser humano precisa não de homeostase, mas daquilo que chamo de "noodinâmica", isto é, da dinâmica existencial num campo polarizado de tensão, onde um pólo está representado pelo sentido a ser realizado e o outro pólo, pela pessoa aque deverá realizá-lo. E ninguém pense que isto é válido somente para situações normais; isto vale ainda mais para indivíduos neuróticos. Quando os arquitectos querem reforçar uma arcada que ameaça desabar, eles aumentam a carga por ela sustentada, pois com isso os componentes são ligados mais firmemente. Da mesma forma, quando os terapeutas desejam incrementar a saúde mental dos seus pacientes, não deveriam ter receios de criar uma sadia quantidade de tensão através da reorientação para o sentido da vida".

Em Busca do Sentido, Viktor Frankl

como é para um surdo ouvir música pela primeira vez?

29.8.12

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Being able to hear the music for the first time ever was unreal.
When Mozart's Lacrimosa came on, I was blown away by the beauty of it. At one point of the song, it sounded like angels singing and I suddenly realized that this was the first time I was able to appreciate music. Tears rolled down my face and I tried to hide it. But when I looked over I saw that there wasn't a dry eye in the car.
ler o resto aqui.
diz que já adoro o rapaz só pelo comentário que faz à música country.
e não podia deixar de reparar na frase com que termina o artigo.

nos tempos livres

29.8.12

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Ingmar Bergman